quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Romaria do Divino Senhor da Serra - III


A romaria do Divino Senhor da Serra é conhecida como a maior romaria da região centro de Portugal. A romaria atual é uma romaria muito diferente do que era em 1902. Como refere o periódico Resistência e outros, em 1902 a romaria era viva e pitoresca: “Anda a Cidade (Coimbra) desde o dia 15, cheia dos ranchos dos romeiros, que vão ou voltam do Senhor da Serra, cuja romaria anual acaba hoje. - A estrada da Beira anda animada daqueles grupos, que vão de merendas à cabeça, ou voltam com a imagem do Senhor, cuidadosamente metida na fita do chapéu. – Quando chegam à portela, se levam animais, atravessam o rio a vau, sem se importarem com os risos e os ditos, que lhes gritam de cima os que vão pela ponte, ao verem as mulheres levantarem cuidadosamente, e bem alto, as saias para não lhas molhar o rio. – Depois lá vai tudo até às vendas de Ceira, e daí ladeira acima, até ao alto do monte, donde se avista o telhado alegre da hospedaria da capela, e começa a sentir-se a caricia do vento fresco. – Parão a ouvir um sermão, depois outro. – Lino de Assunção descreve o efeito cómico dos sermões pregados ao mesmo tempo, em pleno ar e pleno Sol. – Ainda hoje a fama do púlpito é para quem mais berra. – o quadro não deixaria de ser singularíssimo, e digno de um pincel cáustico. – O céu límpido e azul, o Sol claro e abrasador, e a planura do cômoro apinhado de homens, suando dentro nos grosso jaquetões de briche, e de mulheres com saias de seriguilha pela cabeça deixando cair sobre as testas deprimidas as farripas de um cabelo empastado como linho antes de ser cardado. Aqui no púlpito do adro o pregador confundindo a sua voz com o eco de outra que lhe vem lá de dentro de junto do altar. Mais além outro, na beira de um carro, encostado a uma pipa, e a quem o festeiro abriga com um enorme chapéu vermelho, que mais vermelhas torna as bochechas luzidias do pregador. Debaixo de um toldo de barraca e sobre uma mesa, vê se outro gesticulando, alagado em água que lhe encharca a sobrepeliz e estola, procurando dominar com a voz as metáforas do vizinho, que sobre uma cadeira à sombra dos pinheiros conta dezenas de milagres acontecidos em favor dos devotos que mandam pregar sermões. E, acabado um sermão, retira-se o grupo que o encomendou e aproxima-se outro que o prometeu. E todas estas vozes já roucas procurando dominar o ruido confuso dos descantes, das guitarras, das algazarras dos beberrões, das alterações das rivalidades estimuladas pelo álcool e até das injurias e grosseiras das rixas travadas pela posse de uma mulher, ou pela liquidação de velhas contas que vieram abertas lá desde as aldeias. E o Sol de Agosto dardejando inclemente sobre os largos chapéus e tornando escuros os rostos luzidios e afogueados e ainda mais negros os beiços enegrecidos pelo vinho e pelo pó; e como comentário às palavras dos padres quase áfonos, que clamam pela justiça e misericórdia divinas, as vozes vibrantes das tricanas de Coimbra , menos devotas e mais alegres, bailando e cantando ao som das violas o Manuel Ceguinho ou o Oh ladrão! Ladrão! – Por fim entram na capela onde Cristo agoniza numa cruz de pedra, deixando cair a cabeça para mostrar os cabelo negro que cresce, como diz a lenda todos os anos. – Pelas paredes pregadas em ripas de madeira, vêem-se tranças de cabelo de todas as cores, votos que fazem os doentes, por saberem que é este o sacrifício que mais gosto dá ao Senhor da Serra”. 


Texto: Vasco FranciscoPublicações periódicas: Despertar (O)Diário de CoimbraGazeta de CoimbraJornal de CoimbraNoticias de CoimbraResistênciaTribuno (O) Popular
Foto: Romeiros a caminho do Senhor da Serra


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