De
onde sou, sempre serei
O silêncio da noite
conquista a aldeia de rua em rua. Nada mais se houve, a não ser uma levada de
água, que vai moldando os campos e fazendo deles margens de um rio invernal,
provocado pelas chuvas e por uma nascente escondida de todos. A água que cai dos
beirais lava a solidão das velhas ruas onde já não mora ninguém. Ruas
engalanadas que viram partir uns mais velhos e emigrar uns mais novos. Ao olhar
aquelas ruas, fica sempre a vida e a memória de gente que nasceu na Beira
(região das beiras) e consigo levou recordações destas terras. Desço a um
bairro mais moderno, e aí se vê que a genuinidade ainda continua a acompanhar
os tempos. Assim sinto-me orgulhoso e honrado de aqui ter nascido e crescido, a
ouvir o falar desta gente que se entranha nos meus lábios e me transmite
conhecimento e carinho. Sinto-me diferente e fortunado por viver entre os
verdes campos que me transmitem esperança. Ser aldeão desta terra é poder dar
valor ao que a vida nos oferece desde o cantar de um bonito pardal até à grande
festa da padroeira. Quem aqui nasce, aprende a viver de uma forma única,
embalado no som da água que corre e deixa para traz as ruínas de um moinho que
chora pelo seu moleiro, é ouvir o som de uma enxada que finca a terra com a
força do lavrador, é ouvir os paços de uma mulher que vem da fonte com a roupa
lavada no lavadouro, é ouvir o sino chamar à capela a orar em aflição ou em
ação de graças. Que alegria poder ver um grupo de crianças que brinca no meio
da rua sem ter receio do trânsito. Os aromas do campo convidam a parar quem
passa e o fumegar de uma lareira aclama a união de uma família que à mesa
partilha o mesmo pão, que apesar de não ser muito é pobre mas saboroso. O crime
é raro e quando o há acodem-se uns aos outros.
Para descrever uma
aldeia, há palavras, mas não há espaço nem tempo para tantas. Tanto se pode
dizer sobre as aldeias de Portugal, é nelas que está a verdadeira identidade de
uma nação. Quem realmente é aldeão ou quem por algum motivo gosta destas
pequenas províncias vê a sua aldeia desde o pormenor mais escondido até àquele
que mais se destaca. Portugal é um país repleto de história, tradições,
paisagens únicas, consta de um património riquíssimo e primoroso assim como de
uma nobre e deliciosa gastronomia afamada no mundo inteiro. Desde as cidades às
aldeias, Portugal mergulha numa identidade única no mundo fazendo de si um país
genuíno e riquíssimo. Não se pode confundir PORTUGAL, o país de que até agora
falei, de Portugal, de um navio afundado por uma tripulação pirata que não sabe
navegar.
As aldeias de Portugal
ainda hoje são a prova viva do trabalho dos portugueses, de que da pobreza se
pode alcançar a riqueza e o sucesso mas sobretudo a felicidade. A felicidade
com que o povo vive as tradições e costumes. Desde o Minho ao Algarve a região
das Beiras é talvez onde espirito de aldeão se vive com mais intensidade. Cada
aldeia tem a sua identidade, o seu padroeiro, as suas tradições e os seus
sabores, tudo isto faz com que quem realmente ama a sua terra leva na
recordação as suas origens mesmo que as tenha de deixar, mas sempre será
daquela terra que o viu nascer. Ultimamente a sociedade mais jovem tende
esconder o nome das suas terras (especialmente em aldeias), não há que ter
vergonha de dizer de onde somos mas o que na verdade interessa é o que levamos
e o que vivemos nessa aldeia, os conhecimentos os sabores e o acolhimento de um
povo por vezes pobre mas tão nobre.
A chuva parou para que
eu escrevesse a olhar o campo que não me canso de ver. O vento segreda-me em
voz serena que daqui a poucas horas uma tempestade virá, e me avisa para
recolher o rebanho. O Sol que por vezes espreitou já se escondeu no ocidente e
já se vai embalando no berço da noite. A lua por lá anda de candeia acesa, mas
hoje não sei se aparecerá. Enquanto não a vejo sigo a minha lida e adormeço as
palavras onde uma se destaca: PORTUGAL.
Texto de Vasco
Francisco
Foto de Armando Jorge



