domingo, 27 de janeiro de 2013


Nos Trilhos da água
Os Moinhos da Lata
De muitas ruínas e sítios escondidos, restam-nos hoje as histórias que nos contam os nossos avós. Histórias que se vão passando de geração em geração, memórias de um povo trabalhador e humilde. Entre muitas memórias que ainda se ouvem na aldeia da Lata, as memórias dos velhos moinhos do Cana-Fechal, ainda se fazem ouvir dos lábios dos mais velhos. 
Do lado oeste da aldeia, localiza-se uma grande área de campo e pinhal, uma área onde a Natureza é simples e campestre mas no entanto encantadora, principalmente no Inverno e na Primavera. Passo assim a descrever este sítio escondido, que faz fronteira entre a Lata e aldeias vizinhas e que está intimamente ligado aos antigos costumes das aldeias.
“ Nesta típica tarde de Inverno, resolvi calcar uma estrada diferente, poder-lhe-ia chamar um roteiro se assim fosse eleito, mas na verdade é apenas um caminho longo e esquecido onde a Natureza é vasta e encantadora. As terras do Cana-Fechal foram em tempos o pão de muitas famílias aldeãs. Atualmente alberga as estradas, os campos, os pinhais e a ribeira que sempre teve, mas é um lugar que hoje é visto de outra forma. A Natureza oferece um belo passeio, por estas terras silenciosas onde apenas se ouve a orquestra da natureza. De cavalo, a pé ou mesmo de bicicleta a fauna e a flora é sempre primorosa. Nestes terrenos campestres admiro as velhas estradas, no Verão secas e no Inverno enlameadas cheias de água que a chuva oferece. No terreno pedregoso das velhas estradas, pode-se ver as relheiras dos carros de bois que ali ficaram marcadas até aos nossos dias. Os campos verdes e férteis, floridos na primavera são um dos encantos do local. Antigamente eram todos amanhados, de manhã cedo as terras enchiam-se de pessoas que iam até às terras a pé, de burro ou na carroça dos bois. Plantavam um pouco de tudo, mas o centeio e o trigo eram as plantações mais abundantes. Hoje enchem-se de pomares, de vinhas, aveia e silvas cultivadas pelas própria terra. Cada pedaço de terra e de pinhal era uma fortuna para qualquer homem, se vissem roubar algum pinheiro era uma guerra armada. Entre os pinhais restam hoje vestígios dos resineiros, os pequenos vasos de barro para onde a resina escorrera, vêm-se pelo chão.
O Silêncio é cortado pelo som dos pássaros, dos milhafres, das corujas e galhofas, pelas cegarregas no verão e grilos na primavera. Ao largo dos poços, ouvem-se os sapos e as rãs. Um javali, uma raposa ou uma lebre que se move sem querer ser vista. O som do vento calmo que balouça os olivais, pomares e as folhas das videiras. De entre todos estes sons há um que se destaca desde as primeiras chuvas até ao romper do Verão. É som do ribeiro, da água que fresca e pura banha as terras e lhes sacia a cede. Esta ribeira que nasce em terras vizinhas, prolonga-se num percurso estreito até ao rio Ceira, muitos quilómetros saudando a água de muitos afluentes. Quando caiem as primeiras chuvas a ribeira começa a renascer, com ela nasce uma paisagem magnífica. As cascatas e as levadas oferecem um som natural que antigamente era ainda mais bonito. Hoje os velhos moinhos abandonaram a água. Em tempos passados, os moinhos de água do Cana-Fechal eram a atração de muitas pessoas. Ao todo eram cerca de 6 moinhos, hoje apenas um está em pé mas já não funciona. As ruínas fizeram-se com o tempo e hoje os mais velhos que os viram funcionar, quando passam por eles sufocam a saudade de tempos que ali viveram.
Todos os moinhos eram de pessoas da Lata e de aldeias vizinhas. Quando a ribeira começava a levar as primeiras águas, os aldeãos deslocavam-se às dezenas, com os burros carregados de taleigos de milho, trigo e centeio. Os moleiros preservavam os seus moinhos como uma casa. Passavam ali tardes a moer a semente que depois de transformada em farinha servia para a confeção de broa e pão cozidos no forno de lenha. Todos os moinhos de água ao longo da ribeira eram moinhos de rodizio (rodizio: roda com penas de madeira, com movimento horizontal ligada à mó por um veio).
De entre muitas tarefas do moinho, os moleiros reparavam os rodízios no inferno do moinho (Inferno do moinho: parte inferior do moinho onde se situava o rodizio), reparavam a moega ou tegão (moega ou tegão: peça funda de madeira onde é colocado o grão), picavam a pedra (Pedra: mó em granito) entre muitas tarefas que lhe cabiam para o bom funcionamento do moinho.  No exterior limpavam a levada (levada: canal por onde segue a água até ao moinho), concertavam as tampas ou pejadouro (pejadouro: tábua que comanda a direção da água na levada), entre muitas outras tarefas. Os moleiros tinham assim um vocabulário especifico para cada parte da faina.
Dos moinhos do Cana-Fechal restam as ruínas e as memórias do povo que os viu trabalhar, restam ainda os vestígios da atividade: como mós, as balanças, pesos, alqueires, e outros apetrechos. Moleiros já não existe nenhum. Contam por cá os mais velhos que no inverno, os moleiros passavam tardes nos moinhos a ouvir o som da água e da mó a moer, regressavam já tarde à luz da candeia em cima do burro carregado de taleigos. Os moleiros por vezes levavam consigo alguém para os ajudar e levavam o farnel. Por vezes reuniam-se os moleiros num só moinho e passavam horas a cantar ao som da viola. Restam ainda alcunhas destes homens que eram apenas moleiros enquanto passava água na ribeira (Inverno-Primavera), que os velhos aldeãos ainda guardam no pensamento como: Zé do moinho, Mário moleiro entre outros nomes. O moleiro sempre que moia para outras pessoas, retirava a sua maquia de farinha, e assim lhe pagavam pelo seu trabalho.
Ao longo desta famosa ribeira, erguiam-se também engenhos de cortar madeira, lagares de azeite e engenhos do linho. Todas estas construções, aproveitavam a água da ribeira para trabalhar.
Depois de tudo trabalhado pela natureza, do moinho vinha a farinha, que servia para o fabrico artesanal do pão de trigo, da broa de milho e centeio, sempre cozido a forno de lenha. Apesar de já não haver moinhos ficou felizmente na aldeia da Lata e aldeias vizinhas a arte de confecionar a broa e o pão no forno de lenha. Um produto que era a refeição de centenas de famílias. Dos engenhos do linho que era cultivado nos campos das aldeias e que depois passava pela água da ribeira, ficou-nos as lindas toalhas, panos e lençóis, hoje relíquias guardadas nas grandes arcas de madeira.  “
Termino assim, este artigo que já vai longo. Das memórias que nos restam destes antigos costumes, fico contente por ainda haver no nosso país uma vasta rede de moinhos de água e de vento, fico triste por os moinhos da aldeia já não funcionarem mas sei que foi a partir deles que hoje ouvimos histórias e memórias contadas ao serão.
No vídeo que se segue pode-se assistir a imagens únicas recolhidas no ano de 2010. Apesar de não serem da melhor qualidade, dá para mostrar a natureza e os vestígios do Cana-Fechal.
Texto de Vasco Francisco.
Vídeo: Realização de Vasco Francisco, “Nos trilhos da água “, 2010.     

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013


As Janeiras
O Cantar dos reis ou o cantar das janeiras, é uma tradição muito antiga, que até aos nossos dias se tem preservado através dos grupos de folclore, das associações culturais e pelo povo amante das nossas tradições. As Janeiras são uma tradição que pertence ao ciclo natalício. Para muitos a primeira festa do ano.
De candeias e lampiões na mão, homens e mulheres que se abrigavam do frio com grandes xailes e samarras, punham-se a caminho entre vinhedos e olivais, pelas ruas estreitas das aldeia a cantar as janeiras na noite de reis. Cantavam à porta dos aldeãos, que ao ouvirem as bonitas quadras acompanhadas pelos instrumentos de corda e pelas concertinas, abriam a porta aos cantadores. A alegria das pessoas entrava no coração de quem os recebia de porta aberta e lhes oferecia uma chouriça, um bocado de carne da salgadeira, uma garrafa de azeite, bens que a terra dava ao longo de um ano. O frio da noite caía sobre os corpos alegres e humildes do grupo que se reunia no fim da noite para desfrutar as oferendas. Era assim que antigamente era celebrada a chegada dos reis ao presépio. Felizmente esta é ainda uma tradição que se cumpre à regra em muitos lugares do nosso país. As músicas que eram cantadas foram-se passando de geração em geração, e assim ainda se cantam por essas aldeias e cidades.
            Na aldeia da Lata, a tradição dos reis, é a primeira festa do ano. É celebrada de uma forma genuína. O cantar das janeiras na Lata é uma tradição que se realiza à mais de 30 anos, e que com o passar do tempo tem surpreendido os aldeãos. Na aldeia as janeiras são celebradas no 1º domingo a seguir ao dia de reis (6 de Janeiro). A festa é organizada pela comissão de festas da aldeia. Logo pela manhã no alto da aldeia faz-se ouvir muita música portuguesa que se ouve por toda a povoação e assinala que é dia de festa. Pode-se dizer que esta festa está dividida em 3 partes: o cortejo dos reis, a missa de reis e o leilão de oferendas. O Cortejo dos reis é talvez o mais aguardado. Um grupo de pessoas reúne-se para cantar as janeiras acompanhados dos tocadores que com instrumentos comuns percorrem a aldeia a cantar as quadras populares das janeiras. O que torna genuína esta tradição é a formação do cortejo. Para além dos cantadores das janeiras, este cortejo é também composto pelos comuns tratores agrícolas da aldeia, que enfeitados com palmeira, acácia e fitas são o transporte das oferendas oferecidas pelos aldeãos, produtos que terra dá e iguarias tradicionais e não só. Estas oferendas apesar de simbolizar as prendas dos reis ao menino Jesus simbolizam também o gosto e a alegria pela preservação desta antiga tradição. A volta ao lugar é feita numa 1h e meia, uma vez que é pequeno. A abrir o cortejo, não sendo fixo anualmente, vão os três cavaleiros. Quando chegam ponto de partida o cortejo é encerrado e é esperada a missa solene.
O povo celebra neste dia a primeira missa do ano na aldeia que é celebrada na capela de Nossa Senhora da Saúde. O altar está enfeitado a condizer com a época natalícia, num canto da capela ergue-se o presépio que é admirado por todos, sendo para os mais novos um carinho e uma forma de ver jesus. Neste dia o menino Jesus sai do presépio e sobe ao altar onde o deitam sobre uma almofada ou sobre um pano branco. Aldeãos e não só, vêm adorar o menino à pequena ermida onde no final da missa o padre dá o menino Jesus a beijar ao som dos velho cântico “Entrai, entrai pastorinhos…”, cantados pela assembleia. Um momento de amor e de alegria, um gesto simples de louvar Jesus e o seu nascimento. Por vezes apenas este momento leva mais pessoas à eucaristia. No fim da missa homens e mulheres reúnem-se à porta da capela onde os desejos de bom ano se fazem soar.
Já quando a noite vem perto, na sede da ADCR da Lata realiza-se o tradicional leilão de ofertas. Nos bordos do palco estão expostas as oferendas que foram recolhidas durante o cortejo. Uma a uma vão sendo leiloadas ao microfone e apresentadas ao povo. O ambiente é de convívio rural. Os homens divertem-se a jogar às cartas, à malha (jogo tradicional) e ainda me lembro quando lançavam o pião. Os mais novos desenferrujam os matraquilhos. As mulheres sentam-se nos bancos compridos do salão, onde todas juntas conversam. Quando começam a ser leiloadas as primeiras ofertas, o povo presente divide-se pelas mesas (normalmente, as mulheres numa mesa, e os homens noutras)  e vai começando a comprar as ofertas que são para comer, como queijos, vinho, chouriças etc. Por vezes à ofertas que começam com valores baixo e vão até mesmo aos 100 euros. As ofertas para comer vão em cestos de vime forrados com o pano mais bonito desde linho até outros.  Entre muitas ofertas destacam-se as que não são tão vendidas, alguns aldeãos oferecem galos, abóboras, árvores, entre muitos produtos rurais.

No fim fica a recordação de um dia de festa, de mais uma tradição religiosa que felizmente não se vê perto do fim.        

Texto de Vasco Francisco