Nos
Trilhos da água
Os
Moinhos da Lata
De muitas ruínas e
sítios escondidos, restam-nos hoje as histórias que nos contam os nossos avós.
Histórias que se vão passando de geração em geração, memórias de um povo
trabalhador e humilde. Entre muitas memórias que ainda se ouvem na aldeia da
Lata, as memórias dos velhos moinhos do Cana-Fechal, ainda se fazem ouvir dos
lábios dos mais velhos.
Do lado oeste da
aldeia, localiza-se uma grande área de campo e pinhal, uma área onde a Natureza
é simples e campestre mas no entanto encantadora, principalmente no Inverno e
na Primavera. Passo assim a descrever este sítio escondido, que faz fronteira
entre a Lata e aldeias vizinhas e que está intimamente ligado aos antigos
costumes das aldeias.
“ Nesta típica tarde de
Inverno, resolvi calcar uma estrada diferente, poder-lhe-ia chamar um roteiro
se assim fosse eleito, mas na verdade é apenas um caminho longo e esquecido
onde a Natureza é vasta e encantadora. As terras do Cana-Fechal foram em tempos
o pão de muitas famílias aldeãs. Atualmente alberga as estradas, os campos, os
pinhais e a ribeira que sempre teve, mas é um lugar que hoje é visto de outra
forma. A Natureza oferece um belo passeio, por estas terras silenciosas onde
apenas se ouve a orquestra da natureza. De cavalo, a pé ou mesmo de bicicleta a
fauna e a flora é sempre primorosa. Nestes terrenos campestres admiro as velhas
estradas, no Verão secas e no Inverno enlameadas cheias de água que a chuva
oferece. No terreno pedregoso das velhas estradas, pode-se ver as relheiras dos
carros de bois que ali ficaram marcadas até aos nossos dias. Os campos verdes e
férteis, floridos na primavera são um dos encantos do local. Antigamente eram
todos amanhados, de manhã cedo as terras enchiam-se de pessoas que iam até às
terras a pé, de burro ou na carroça dos bois. Plantavam um pouco de tudo, mas o
centeio e o trigo eram as plantações mais abundantes. Hoje enchem-se de
pomares, de vinhas, aveia e silvas cultivadas pelas própria terra. Cada pedaço
de terra e de pinhal era uma fortuna para qualquer homem, se vissem roubar
algum pinheiro era uma guerra armada. Entre os pinhais restam hoje vestígios
dos resineiros, os pequenos vasos de barro para onde a resina escorrera, vêm-se
pelo chão.
O Silêncio é cortado
pelo som dos pássaros, dos milhafres, das corujas e galhofas, pelas cegarregas
no verão e grilos na primavera. Ao largo dos poços, ouvem-se os sapos e as rãs.
Um javali, uma raposa ou uma lebre que se move sem querer ser vista. O som do
vento calmo que balouça os olivais, pomares e as folhas das videiras. De entre
todos estes sons há um que se destaca desde as primeiras chuvas até ao romper
do Verão. É som do ribeiro, da água que fresca e pura banha as terras e lhes
sacia a cede. Esta ribeira que nasce em terras vizinhas, prolonga-se num
percurso estreito até ao rio Ceira, muitos quilómetros saudando a água de
muitos afluentes. Quando caiem as primeiras chuvas a ribeira começa a renascer,
com ela nasce uma paisagem magnífica. As cascatas e as levadas oferecem um som
natural que antigamente era ainda mais bonito. Hoje os velhos moinhos
abandonaram a água. Em tempos passados, os moinhos de água do Cana-Fechal eram
a atração de muitas pessoas. Ao todo eram cerca de 6 moinhos, hoje apenas um
está em pé mas já não funciona. As ruínas fizeram-se com o tempo e hoje os mais
velhos que os viram funcionar, quando passam por eles sufocam a saudade de
tempos que ali viveram.
Todos os moinhos eram
de pessoas da Lata e de aldeias vizinhas. Quando a ribeira começava a levar as
primeiras águas, os aldeãos deslocavam-se às dezenas, com os burros carregados
de taleigos de milho, trigo e centeio. Os moleiros preservavam os seus moinhos
como uma casa. Passavam ali tardes a moer a semente que depois de transformada
em farinha servia para a confeção de broa e pão cozidos no forno de lenha.
Todos os moinhos de água ao longo da ribeira eram moinhos de rodizio (rodizio:
roda com penas de madeira, com movimento horizontal ligada à mó por um veio).
De entre muitas tarefas
do moinho, os moleiros reparavam os rodízios no inferno do moinho (Inferno do
moinho: parte inferior do moinho onde se situava o rodizio), reparavam a moega
ou tegão (moega ou tegão: peça funda de madeira onde é colocado o grão),
picavam a pedra (Pedra: mó em granito) entre muitas tarefas que lhe cabiam para
o bom funcionamento do moinho. No
exterior limpavam a levada (levada: canal por onde segue a água até ao moinho),
concertavam as tampas ou pejadouro (pejadouro: tábua que comanda a direção da
água na levada), entre muitas outras tarefas. Os moleiros tinham assim um
vocabulário especifico para cada parte da faina.
Dos moinhos do
Cana-Fechal restam as ruínas e as memórias do povo que os viu trabalhar, restam
ainda os vestígios da atividade: como mós, as balanças, pesos, alqueires, e
outros apetrechos. Moleiros já não existe nenhum. Contam por cá os mais velhos
que no inverno, os moleiros passavam tardes nos moinhos a ouvir o som da água e
da mó a moer, regressavam já tarde à luz da candeia em cima do burro carregado
de taleigos. Os moleiros por vezes levavam consigo alguém para os ajudar e levavam
o farnel. Por vezes reuniam-se os moleiros num só moinho e passavam horas a
cantar ao som da viola. Restam ainda alcunhas destes homens que eram apenas
moleiros enquanto passava água na ribeira (Inverno-Primavera), que os velhos
aldeãos ainda guardam no pensamento como: Zé do moinho, Mário moleiro entre
outros nomes. O moleiro sempre que moia para outras pessoas, retirava a sua
maquia de farinha, e assim lhe pagavam pelo seu trabalho.
Ao longo desta famosa
ribeira, erguiam-se também engenhos de cortar madeira, lagares de azeite e
engenhos do linho. Todas estas construções, aproveitavam a água da ribeira para
trabalhar.
Depois de tudo
trabalhado pela natureza, do moinho vinha a farinha, que servia para o fabrico
artesanal do pão de trigo, da broa de milho e centeio, sempre cozido a forno de
lenha. Apesar de já não haver moinhos ficou felizmente na aldeia da Lata e
aldeias vizinhas a arte de confecionar a broa e o pão no forno de lenha. Um
produto que era a refeição de centenas de famílias. Dos engenhos do linho que
era cultivado nos campos das aldeias e que depois passava pela água da ribeira,
ficou-nos as lindas toalhas, panos e lençóis, hoje relíquias guardadas nas
grandes arcas de madeira. “
Termino assim, este
artigo que já vai longo. Das memórias que nos restam destes antigos costumes,
fico contente por ainda haver no nosso país uma vasta rede de moinhos de água e
de vento, fico triste por os moinhos da aldeia já não funcionarem mas sei que
foi a partir deles que hoje ouvimos histórias e memórias contadas ao serão.
No vídeo que se segue
pode-se assistir a imagens únicas recolhidas no ano de 2010. Apesar de não
serem da melhor qualidade, dá para mostrar a natureza e os vestígios do
Cana-Fechal.
Texto de Vasco
Francisco.
Vídeo: Realização de
Vasco Francisco, “Nos trilhos da água “, 2010.
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