quinta-feira, 11 de outubro de 2012


Vindimas
O Outono é sinónimo de colheitas, mais propriamente sinónimo de vindimas. Quando chega esta bonita estação do ano, os campos da Lata enchem-se de gente onde predomina a alegria e o convívio. Antigamente celebrava-se as vindimas como de uma grande festa se tratasse. As uvas são colhidas das videiras para fazer o vinho do ano. Antigamente as vindimas eram feitas de uma forma diferente relativamente ao que hoje assistimos, mesmo assim nesta localidade ainda possuem traços únicos e tradicionais. Durante esta altura do reportório agrícola a festa é constante nos lagares e nas adegas, das nossas aldeias.
Quando falo em vindimas refiro-me desde a apanha da uva até à produção do vinho. A faina, começa na vinha a partir de Janeiro com a poda das videiras. Antigamente este trabalho era muito reservado às mulheres que se reuniam e podavam as vinhas e os corrimões de videiras dos campos. Na Primavera as videiras ganham flor e começam a dar os cachos. Durante este tempo de floração as videiras são regadas regularmente. Já no Verão as uvas ganham cor e o aroma começa a sentir-se pelos campos fora. A partir desta altura as uvas começam a encher, como se costuma dizer, os cachos começam a ficar “bêbados”. Finalmente chega o mês de Setembro, Outubro e começam as vindimas, quando as uvas já se encontram maduras e prontas para oferecer um bom vinho ao camponês.
A vindima começa de manhã. Um grupo de pessoas, amigos e familiares, reúnem-se no local e no dia combinado e depois seguem para o campo. Normalmente as pessoas “agendam” as vindimas para que os elementos do grupo ajudassem nas vindimas uns dos outros. À mão e com a ajuda da tesoura de podar cortam as uvas da vinha. Um ambiente onde nasce uma melodia, uma melodia originada pelo som das tesouras, das folhas, dos cachos a cair nos cestos e do falar dos homens e de das mulheres da vinha. Antigamente cada pessoa enchia o seu cesto ou cabaz de cachos, hoje utilizam-se mais os chamados posseiros. Depois dos cestos estarem cheios eram carregados para o carro de bois que atualmente foi substituído pelos tratores. Os bois  levavam os cestos na carroça ou então os cestos eram despejados para uma grande pipa ou dorna que era transportada em cima da carroça. As uvas exigem um forte cuidado de acondicionamento e um rápido transporte para a adega, pois não convém serem “amaçadas” nem estarem ao calor, estes fatores podem provocar uma fermentação prematura das uvas. A meio da manhã ainda no campo petisca-se alguma coisa que as mulheres preparam para este trabalho tão aguardado pelos camponeses. Enchidos, queijos, pão, broa e claro o vinho não poderia faltar, oram não se tratasse das vindimas. Depois das uvas colhidas e carregadas segue-se para a adega ou lagar. Aqui seguem-se os próximos processos. O almoço é mais um capítulo desta grande celebração das vindimas. O convívio e a alegria reinam nesta refeição perlongada, época de descanso para os vindimeiros. Antigamente as uvas eram depositadas em grandes tanques onde eram pisadas pelos pés do homem. De calções ou de calças arregaçadas os homens pisavam as uvas ao mesmo tempo que as pernas ganhavam a cor do vinho, do fruto sagrado que é trabalho do homem. Este trabalho era feito ao som da música das concertinas, violas e cantares, em ambiente de festa as pessoas pisavam as uvas numa pisada certa e rítmica. Este é mais um dos momentos bonitos das vindimas. Atualmente procedesse a esta tarefa com o esmagador manual ou elétrico havendo ainda quem preserve a tradição. Resultado do esmagamento é o mosto que durante cerca de 4 dias fica em fermentação. O açúcar e alguns ácidos são os componentes que se juntam nesta fermentação do mosto. Durante estes dias o vinho é mexido uma a duas vezes por dia. O perigo é constante. Já morreram muitas pessoas nos lagares, devido ao forte cheiro inalado. Passados cerca de quatro dias, o vinho é armazenado nas grandes e pequenas pipas de madeira. Com um cântaro, o vinho é medido ao litro e mudado para as pipas de madeira que eram construídas pelos tanoeiros. Depois do vinho distribuído pelas pipas onde vai ficar até atingir o ponto ideal para se beber, resta no tanque o chamado bagaço ou cardaço. Nesta fase das vindimas a faina pode continuar como acabar nesta parte do processo. Por vezes o bagaço é prensado numa prensa de madeira, um utensilio antigo e engenhoso e é aproveitado o vinho até ao fim e assim termina a vindima. Mas há ainda um grande número de pessoas que segue com o bagaço para a destiladeira.  Neste momento da faina aparece o alambique, apesar de antigamente ser mais utilizado, atualmente ainda não deixa de o ser nas nossa aldeias. Antigamente quase todas as pessoas que faziam a vindima faziam aguardente para o uso doméstico e para dar aos amigos. Quem não tinha alambique fazia no do vizinho ou no do amigo. Passavam horas, dias e noites nos alambiques, a colocar lenha na fogueira e a controlar o calor, mudando a água do tanque, substituindo o bagaço, provando a aguardente, coisas que requeriam paciência e atenção. Era com a aguardente que se faziam remédios caseiros e se animavam as noites. A vindima e toda esta faina é dada como terminada no alambique.
Resta agora esperar pelo S. Martinho em Novembro para provar o vinho e a aguardente acompanhada por umas castanhas assadas. Já diz o ditado “No dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho.”
As vindimas são sem dúvida uma grande referência da etnografia portuguesa. A região do Douro é a província de Portugal caracterizada pelas vindimas. Na nossa região e em toda a região das beiras as vindimas são também retratadas como uma celebração, uma festa do campo e das nossas aldeias.
Termino este artigo referindo apenas uma quadra popular das muitas quadras que a minha avó me ensinou relativamente ao vinho que se mistura com o humor popular.
“Quando eu morrer,
Não quero choros nem gritos, 
Só quero ver ao pé de mim
Garrafões de cinco litros.”      

Texto de Vasco Francisco.
Foto: Vindimas nos fins do séc. XIX.




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